segunda-feira, 21 de maio de 2012

“Um Novo Começo Sem Comparação...”


A fênix ou fénix (em grego ϕονιξ) é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em auto-combustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas

Wikipédia



Assim como Neo na trilogia Matrix, acorda de seu sonho e passa a ter dificuldades com a realidade; assim é com muitos que deixaram as fileiras de militantes robotizados da Sociedade Torre de Vigia.
A impressão que se tem, é que ex-Testemunhas que foram Testemunhas por um longo período terão certamente mais dificuldades de encarar a realidade como ela é. Lembra o processo de desintoxicação de narcóticos. Quanto mais tempo usando a droga, maior o período e maior o sofrimento para libertar-se do vício.
É importante abordar esse tema, pois eu percebo que existe uma ansiedade entre as pessoas que não são e nunca foram Testemunhas de Jeová, no sentido de desejarem com força que pessoas que saíram da Torre retomem suas vidas rapidamente. Poucas pessoas sabem o quanto esse processo é difícil; arriscando-me a dizer que, talvez até mesmo alguns profissionais da área de psicologia não o sabem. O processo varia de pessoa para pessoa, é claro.
Na cultura Pop, tive alguns exemplos em desenhos animados de como a lavagem cerebral causa efeitos devastadores. Em Matrix o personagem principal se vê retirado de um universo que é apresentado como real, mas que no fim, não passa de uma grande ilusão mental para manter seres humanos como escravos de um sistema. No desenho japonês Saint Seiya havia um personagem capaz de fazer com que seus inimigos tivessem ilusões mentais tão perturbadoras que mesmo depois do efeito da ilusão, a pessoa continuava a ter dificuldades de saber o que era e o que não era real.

Emociono-me de ver a ficção tão perto da vida real e vise-versa. Tudo o que eu tinha desapareceu em poucos meses: meus pais, meus amigos, meu trabalho, minha formação – Fui submetido à um processo que podemos chamar de descaracterização. Toda ligação com o mundo real é apresentada como falsa para o que se sujeitam aos ensinos da Torre de Vigia. Partindo da idéia de que o mundo vai acabar a qualquer momento, primeiro nos são tirados os valores materiais:

”Para quê se esforçar tanto em ter um emprego de destaque e com um grande salário? Não percebe que esse mundo está a beira do fim? Devemos nos dedicar as coisas mais importantes; coisas como garantir que sobreviveremos ao fim, que você sabe, já esta perto.”

”Se você não mantiver o olho singelo, as preocupações do mundo vão te abraçar. Certifique-se das coisas mais importantes!”

A busca por conhecimento técnico-científico fica prejudicada e, em diferentes níveis e momentos, é claro, a pessoa perde o interesse na vida real e cria interesse na ilusão hipnótica. Vê a pregação de casa em casa como a obra mais importante não importa o quanto seja duro e difícil praticá-la. Se esforçar para aprender uma profissão fica em segundo plano, junto com aquele esforço adicional para crescer e se destacar profissionalmente.

Em seguida há a perda do vínculo emocional. Não é incomum ouvirmos

”Você vai perceber que não precisará ser duro ou hostil com os seus amigos e familiares. Com o seu foco nos seus interesses (espirituais), e sendo esses interesses diferente dos deles, aos poucos verá que eles mesmos se afastarão de você!”

”É o livre-arbítrio! Se eles não querem ouvir ou acatar a palavra de Jeová, você não pode fazer muita coisa a não ser orar por eles. O que não pode acontecer é a sua amizade com Jeová ser afetada por isso”

Já observaram que é necessário um grande esforço para se manter um relacionamento à distancia? Hoje em dia com a ajuda das redes sociais talvez não seja tão complicado, mas imagine uma família onde cada um vive em uma cidade diferente, se comunicando apenas por cartas ou telefonemas esporádicos. Fatalmente o vinculo entre essas pessoas tende a ser enfraquecido. Isso não é uma afirmação categórica, repito, é uma tendência; o que normalmente representa o resultado da observação de um comportamento da maioria. Imaginem agora pessoas vivendo em “realidades”, “mundos” diferentes! É isso que a Torre faz. Ela prega que amigos e familiares tendem a se afastar porque ela sabe que quando o individuo está inserido em sua realidade alternativa, a tendência é que os laços se enfraqueçam. E ela diz “Os laços vão enfraquecer” como se fosse um profeta dos tempos bíblicos, quando na realidade ela só esta usando a tendência ao seu favor.

Por fim a Torre destrói a capacidade do ser humano de buscar ajuda fora de seus muros.

”Todas as outras religiões serão destruídas pelos governantes do mundo”

”Fazem parte de babilônia A Grande!”

”Algumas ciências usam de artes mágicas, que são praticas condenadas por Jeová” (E aqui podemos incluir a Psicologia, Psiquiatria, Antropologia, Filosofia... entre outras ciências humanas)


A Torre é esperta, e sabe que deve preparar o terreno para que seus adeptos não fujam. Tira deles a esperança de encontrar conforto em qualquer outro lugar.


Depois de observarmos esses pontos podemos analisar o processo de saída da Torre.




*Faço aqui um relato meu, que provavelmente deve ter muito em comum com outras pessoas que passaram pelo mesmo processo.



 A perda de si mesmo.


Ao sair da Torre, toda a realidade começa a se distorcer em um grande pesadelo que não tem fim.  Lembro-me de tentar dormir para poder esquecer de tudo que estava se passando comigo, e no fim, acabar sonhando com aquilo que me perturbava. Ao acordar do pesadelo percebia que a realidade podia ser ainda pior. É um verdadeiro inferno sem escolha, sem saída. Aprendemos a tratar o mundo real como se fosse irreal, e o paraíso espiritual (mundo da fantasia) como se fosse presente e vivo. Perceber que o paraíso espiritual é uma mentira causa uma confusão enorme, a consciência fica dividida em dois pólos que passam a travar uma guerra entre si. Lembro-me de por vezes não ter sono pelo fato de minha cabeça estar um reboliço. O certo e o errado se consolidavam para se derreterem logo em seguida. Pensava nas tantas vezes que provavelmente entristeci o coração de alguém por não ter ido à uma festa de aniversário, não ter desejado parabéns e felicidades, natal e ano novo com família e amigos. Enquanto isso o outro lado berrava o quanto eu devia estar desagradando a Jeová e a seus servos fiéis por pensar aquelas coisas. Quantas famílias (de Testemunhas) resistem bem as “pressões” enquanto eu estava cedendo.
Do pique de adrenalina, ia à fadiga total. Alguns dias de trabalho completamente perdidos, seja por não ter forças nem mesmo para levantar da cama ou por ir ao trabalho e não conseguir produzir nada. Esse processo cruel fez com que eu esquecesse quem eu era e para quê eu estava vivo. O desejo de suicídio era um fantasma constante, e o mais incrível é que apesar de saber que a causa de tudo isso era o fato de ter sido mentalmente escravizado por uma organização agressiva, ainda possuía dentro de mim um vestígio de Síndrome de Estocolmo, um desejo mórbido de retornar para a Organização, na esperança de que isso aliviasse o meu sofrimento. Quantos não devem ter passado por isso ou devem ainda estar sofrendo assim?



Um Tenebroso Novo Mundo.
Esse é o momento em que as pessoas que saem da Torre de Vigia se deparam com a vida real.




Cair na real é um termo bastante usado na região em que vivo, e nunca foi tão claro o seu real significado para mim. Senti-me como quem cai do décimo andar, dá de cara no chão, sabe que rachou os ossos da face, sente a dor, mas o cérebro não desliga. A dor de “cair na real” é algo que poucos podem explicar. Havia uma esperança de uma nova terra, com carneirinhos saltitantes, crianças abraçadinhas com lobos bonitinhos e inofensivos, uvas do tamanho de uma laranja e laranjas quase do tamanho de melões, todos tão saborosos como nunca ninguém antes provavelmente já provou. Paz, segurança, abrigo, amor, amizade, trabalho agradável... vazio. Algo muito mais poderoso que o efeito do LSD. Um sonho colorido com cores fortes e intensas que, de uma hora para outra se tornam cinza e disforme. É como ganhar na mega-sena hoje e ser assaltado amanhã.
Esse é um momento duro com o qual muitos ex-Testemunhas têm que lidar. O mundo não vai acabar amanhã, a vida é dura, os empregos não são satisfatórios, as doenças estão aí, as guerras também, não se pode ficar parado. O meu exemplo nem se compara à outros exemplos que conheço, mas, que não me dou o direito de citar aqui. O meu foi coisa pouca, que com sorte, esforço e um pouco de ajuda dos meus amigos, logo poderá ser revertido. Estava em fase de formação na Universidade, poderia buscar emendar estudo e trabalho, pós-graduação, curso de idiomas; tudo foi deixado para trás. Consegui um emprego simples, bem básico para não atrapalhar minha “rotina espiritual”, meus “alvos espirituais”. O pouco tempo que fiquei não foi o suficiente para pôr fim em vínculos de amizade, mas havia feito um esforço para que eles se enfraquecessem, eu confesso. Quis ir trabalhar em Betel, justamente para esquecer dos “mundanos” e poder servir melhor a Jeová (Organização). Mesmo tendo formação superior, busquei fazer um curso profissionalizante pois “seria mais útil em Betel”.
Estava apagando a minha ligação com o mundo real.


Bem, como não fiquei muito tempo dentro da ilusão hipnótica das Testemunhas de Jeová, consigo colocar isso em dia; mas questiono a situação daqueles que passaram 10, 20, 50 anos dentro dessa organização. Quando saem o que acontece? Quem vai empregá-los? Pessoas que estiveram vivendo praticamente em um outro mundo, como farão para recuperar 10 anos perdidos? Não estou afirmando que é o fim do mundo para essas pessoas. Elas tem sim capacidade de retomar seus projetos, seus sonhos, seus hobbies. O que não posso, é negar que esse é um processo difícil, lento, demorado. Foi para mim, imagina para outros com mais idade, outros com menos saúde. Sair da Torre é se deparar com uma realidade no mínimo estranha. O mundo feio e sujo prestes a falir, parece que durará mais tempo do que se imaginava, e ao mesmo tempo em que trás uma sensação de tristeza é possível ver uma ponta de esperança como o sol que nasce por detrás da fumaça escura das grandes cidades. É o recomeço, o memento para abandonar o que é velho e faz mal apesar da sua “beleza” e abraçar o novo que faz bem, apesar de sua aparência mal cuidada.


O amanhecer depois da tempestade sempre será mais belo que os outros


Tudo que escrevi foi simplesmente um vislumbre do terror que vivi nos últimos meses. Ainda tenho sonhos devastadores, ainda detesto encontrar Testemunhas de Jeová nas ruas. Outro dia estava passeando no Shopping quando ouvi uma das músicas que costumam tocar nos Salões do Reino. Meu coração disparou, parecia que eu estava sendo devorado por uma besta selvagem; queria fugir sem saber pra onde, perdi o rumo até que em questão de segundos percebi que era meramente o toque de telefone de (provavelmente) uma Testemunha que também passeava no Shopping. Ao perceber o meu estado, fiquei indignado por ter me permitido chegar nessa situação.
Meu desejo é que a dissidência TJ continue se fortalecendo de verdade, não só no sentido de desmascarar a Torre, mas no sentido de entender que poucos no mundo têm a capacidade de ajudar e compreender outros como nós. Que seja através de blogs, de fóruns e de Associações como a ABRAVRIPRE, que é uma iniciativa fantástica, brasileira, que visa defender os direitos das vítimas de preconceito religioso.
Meu sonho é que possamos diminuir os traumas de pessoas que simplesmente “tinham tudo” e de repente perderam “tudo”. Precisamos fazer com que o mundo veja que essas e outras pessoas que tiveram a vida ligada a Torre precisam de ajuda. Ajuda-las a ver que a vida continua, que existem pessoas que conseguiram superar e que ela também poderão.


Vocês não estão sozinhos!

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